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Entenda a evasão universitária e sua ligação com a exclusão tecnológica.

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Políticas de permanência estudantil e inclusão são um aliado essencial para diminuir a incidência desse fenômeno!

Inclusão Digital

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Conectar para Permanecer: Como a inclusão digital pode reduzir a evasão no ensino superiorÁudio para todes verem
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Conectar para permanecer: como a inclusão digital pode reduzir a evasão no ensino superior.

Por: Eric Róbert, Gabriel Morais e Mariana Rolim​​

   Em Uberlândia (MG), a UFU aposta em iniciativas como o Programa Institucional de Inclusão Digital (PIID), para reduzir os impactos da exclusão e promover maior permanência estudantil.

 

Em 2022, aproximadamente um em cada quatro estudantes abandonou o ensino superior no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O dado revela um problema estrutural que vai além das salas de aula: a permanência universitária ainda é profundamente marcada por desigualdades socioeconômicas. Entre elas, a exclusão digital ocupa um papel cada vez mais central. Em um país onde milhões de jovens não têm computador próprio ou acesso regular à internet de qualidade, acompanhar disciplinas, realizar trabalhos acadêmicos e manter o vínculo com a universidade pode se tornar uma tarefa inviável. Assim, a falta de recursos tecnológicos deixa de ser apenas uma limitação  prática e passa a ser um dos motores da evasão estudantil.

   A exclusão tecnológica se soma a outros obstáculos já enfrentados por estudantes de baixa renda, como a necessidade de trabalhar durante a graduação e a dificuldade de arcar com custos básicos de moradia, alimentação e transporte. A ausência de equipamentos adequados ou de conexão estável, porém, impõe uma barreira particular: limita o acesso a bibliotecas virtuais, plataformas acadêmicas e atividades de pesquisa que hoje fazem parte da rotina universitária. Sem esses recursos, muitos estudantes veem sua trajetória ser marcada por atrasos, reprovações e, em última instância, pela decisão de abandonar o curso.

  Nesse cenário, políticas de inclusão tecnológica ganham espaço como alternativa para enfrentar as desigualdades que pressionam os estudantes a interromper a graduação. Programas de empréstimo de notebooks, distribuição de chips de dados e a manutenção de laboratórios digitais surgem como tentativas sólidas de diminuir as barreiras de acesso ao conhecimento. Ao mesmo tempo, revelam a necessidade de pensar a tecnologia não apenas como ferramenta de apoio, mas como parte essencial das políticas de permanência estudantil. A questão que se coloca é se tais iniciativas têm força suficiente para reduzir os índices de evasão e garantir que o ensino superior, além de acessível na entrada, seja também sustentável na permanência.

   Para investigar esse desafio, esta reportagem toma como recorte a experiência da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que nos últimos anos estruturou ações específicas voltadas à inclusão digital de seus estudantes. A instituição distribui notebooks, fornece auxílio para a contratação de internet e busca implementar mecanismos de acompanhamento para avaliar os impactos dessas medidas na vida acadêmica. Ao longo do texto, a reportagem reúne dados sobre evasão universitária no Brasil, ouve especialistas em educação e tecnologia, gestores da Diretoria de Inclusão, Promoção e Assistência Estudantil (DIRES) da UFU e, sobretudo, os próprios alunos que dependem desses auxílios para continuar conectados às aulas e aos seus cursos. É nesse cruzamento entre estatísticas e trajetórias pessoais que se busca compreender até que ponto a inclusão tecnológica pode ser decisiva para frear a evasão no ensino superior.

 

O tamanho do problema: evasão universitária no Brasil e em Minas Gerais​

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   O infográfico apresenta um panorama da evasão universitária em cursos presenciais nas instituições públicas brasileiras. O Ciclo de 2019 a 2023 representa os dados extraídos dos estudantes matriculados em universidades no ano de 2019 e com previsão de conclusão do curso até 2023. Os dados mostram que a taxa de desistência variou entre 18%, em 2019, e 23,4%, em 2023, evidenciando um crescimento preocupante ao longo do período. Regionalmente, o Sul registrou o maior índice, 50%, enquanto o Sudeste registrou 39%. Entre os estados da região Sudeste, o destaque negativo fica por conta do estado de São Paulo, que, sozinho, alcançou aproximadamente 42% de evasão na região, seguido pelo Espírito Santo com 41%. O estado de Minas Gerais tem a terceira maior porcentagem da região, com 39% de estudantes evadidos. 

  Na Universidade Federal de Uberlândia (MG), a análise dos ingressantes de 2019 indica que as desistências aumentaram progressivamente a cada ano, passando de 5% em 2019, para 38% em 2023. Esses números reforçam a tendência nacional de crescimento da invasão e evidenciam o desafio das instituições públicas em manter os seus estudantes até a conclusão do curso. 

   A evasão no ensino superior brasileiro permanece como um desafio persistente, mesmo com o crescimento do acesso às universidades nas últimas décadas. Segundo dados do Instituto Semesp, cerca de 23% dos estudantes de graduação abandonam seus cursos antes da conclusão, e o índice é ainda maior em algumas regiões e instituições privadas, esse número representa um salto de 5% em relação ao ano de 2019. Entre os principais motivos apontados estão dificuldades financeiras, necessidade de conciliar trabalho e estudo, defasagem acadêmica e fatores pessoais, como saúde mental. O cenário revela que ingressar na universidade é apenas o primeiro passo; permanecer até a formatura exige superar uma série de barreiras estruturais que nem todos conseguem transpor.

   Em Minas Gerais, o problema da evasão se mostra igualmente significativo, embora com variações entre cursos e instituições. Dados do Mapa do Ensino Superior, desenvolvido pelo Semesp, indicam que os estudantes de graduação do estado enfrentam taxas de abandono que se aproximam da média nacional, mas com maior incidência em cursos com maior demanda de presença digital e recursos tecnológicos, como engenharia, computação e áreas da saúde. Além disso, o perfil socioeconômico dos estudantes mais afetados evidencia que a evasão está diretamente relacionada a condições financeiras limitadas, desigualdade no acesso a materiais de estudo e dificuldades de conciliar estudo e trabalho.

 

Por que eles desistem? Os fatores que empurram os estudantes à evasão universitária​

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   De acordo com o docente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Leonardo Barbosa e Silva, referência em pesquisas que abordam evasão e retenção no ensino superior, a decisão de abandonar um curso raramente está relacionada à um único fator. “Normalmente, quando você entrevista uma pessoa que saiu (da universidade), ela vai colocando camadas de fatores. E esses fatores são muito diversos. Eles têm relação direta com a renda? Sim e não. Há muita gente que desiste do curso e possui  um nível de renda elevadíssimo.” O docente complementa que “existem casos de pessoas que abandonam sem ter uma reprovação. Com Coeficiente de Rendimento Acadêmico (CRA) acima de 80. Com um desempenho muito bom.”. Barbosa e Silva ainda explica que “ Você junta o fator familiar com os fatores  individuais como emprego, violência dentro da universidade, assédio ou problemas com alguma disciplina, avaliação, colegas e até com docentes. Você vai juntando camadas. Então, normalmente, não é um fenômeno isolado”.

   Apesar do grupo de estudantes que decidem trancar a matrícula em uma universidade não ter um padrão, para o pesquisador, as pessoas que continuam em seus cursos têm alguns fatores em comum. “Quais são os perfis que abandonam menos? Estudantes que estão participando de  PET (Programa de Educação Tutorial), iniciação científica, projetos de extensão. Estudantes possuem envolvimento em atividades esportivas, estudantes que têm acesso às bolsas de assistência estudantil. Então, esses discentes fazem parte  dos grupos que evadem um pouco menos”.

Por se tratar de um movimento que teve início por volta dos anos 1940, a evasão universitária não possui uma ligação direta à exclusão digital em seu nascimento, porém passou a intensificar o fenômeno nos últimos anos. A exclusão digital como vetor do abandono ao ensino superior age principalmente em dois focos, o etário e o financeiro.

   “Primeiramente, existem as pessoas que são excluídas por uma questão etária, então, pessoas com mais idade. Essas têm inúmeras dificuldades com ferramentas digitais, então, o professor oferece para esse estudante, o uso do Moodle ou o uso do Teams, ele terá mais dificuldade.” Barbosa e Silva complementa que, “pode parecer uma dificuldade boba, simples, trivial, mas não é. Essas pessoas não sabem o que é uma planilha, não sabem abrir um computador.” explicou o professor.

“Para as pessoas que possuem dificuldade relativa à renda, você vai encontrar a falta de acesso a um sinal de internet adequado ou a um equipamento de qualidade. Por exemplo, quando o docente pede para esse estudante realizar uma tarefa que envolve planilha, ele vai recorrer ao aplicativo de planilhas do celular e ele não apresenta todas as ferramentas presentes no mesmo aplicativo no pc convencional.” ressaltou o pesquisador.

   Por si só, essas dificuldades já seriam o bastante para que os grupos que sofrem com esses problemas optassem por não prosseguir em seus cursos, agora, quando juntamos  isso à pandemia da COVID-19, a conversa se transforma. Segundo a Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (SEMESP), da pré-pandemia para a pós, a média brasileira de evasão saltou 3% ao ano. Se, no início dos anos 2020 a exclusão digital já flertava em se tornar um fator determinante na evasão universitária com a pandemia isso se concretizou. Pós COVID-19, universidades como a UFU, passaram a realizar suas operações quase que 100% via portais digitais. Matrículas, trancamentos e consultas de falta são feitas exclusivamente de maneira digital. E para Leonardo Barbosa isso agrava seriamente o cenário da exclusão digital, que já está muito estabelecido na sociedade brasileira. 

   “Quando falamos em digitalização, existe a digitalização dos processos. O registro da falta, da presença, dos diários. A digitalização dos trancamentos, do atendimento ao estudante. Então, existe um um conjunto de procedimentos que estão sendo digitalizados. Hoje em dia, é muito difícil que o professor não passe nada via internet, e ao mesmo tempo para fazer a matrícula na faculdade, é pelo portal. Então é necessário ter esse acesso e principalmente ter esse conhecimento para existir como estudante.”

    É nesse ponto que para Barbosa e Silva, essa digitalização se torna ambígua, “Essa é uma tendência irreversível e todo mundo que não tem acesso à rede estável ou não tem um bom equipamento, não terá acesso às mesmas oportunidades. Por isso que o mundo se torna tão desigual. Porque não adianta você digitalizar se você não concede às pessoas acesso igualitário ao que é digital.”

   O retrato da evasão universitária mostra que o desafio vai muito além de questões individuais: trata-se de um fenômeno estrutural, que combina fatores econômicos, sociais, acadêmicos e, cada vez mais, tecnológicos. A exclusão digital, somada à crescente digitalização de processos e rotinas acadêmicas, intensifica barreiras já conhecidas e coloca em desvantagem justamente aqueles estudantes que mais dependem da universidade pública como instrumento de mobilidade social. A ausência de acesso pleno a computadores e internet de qualidade não apenas compromete o desempenho estudantil, mas pode definir quem permanece e quem abandona o curso.

   Diante desse cenário, algumas universidades brasileiras, entre elas a Universidade Federal de Uberlândia, vêm implementando medidas de inclusão tecnológica como forma de reduzir os impactos da desigualdade com foco no cenário de permanência estudantil. O auxílio notebook, o acesso a internet móvel e a abertura de espaços de acesso tecnológico são exemplos de iniciativas que buscam equilibrar a vivência universitária e oferecer condições mínimas para que todos tenham a oportunidade de concluir sua formação. Essas políticas ainda enfrentam desafios de alcance e financiamento, mas indicam um caminho possível: reconhecer a tecnologia como parte essencial das estratégias de combate à evasão.

 

Iniciativas de inclusão digital para a diminuição da evasão universitária​

    A implementação de políticas públicas com foco na inclusão digital no ensino superior passou a ser decisiva para a permanência estudantil, especialmente após a pandemia do COVID-19, quando grande parte das atividades acadêmicas migrou para plataformas online. Dados do Instituto Locomotiva (2023) mostram que apenas 22% da população brasileira possui conexão à internet de qualidade suficiente para suportar demandas acadêmicas, e esse percentual cai para 3% entre estudantes de classes sociais mais vulneráveis, evidenciando a vulnerabilidade de jovens de baixa renda diante da crescente digitalização do ensino superior. 

   A falta de equipamentos próprios, como notebooks e tablets, e a dependência exclusiva do uso de smartphones, limita o acompanhamento das aulas, o desenvolvimento de trabalhos, a participação em pesquisa e extensão e o acesso a bibliotecas digitais, tornando  a experiência universitária mais desigual e aumentando os índices de evasão. 

Nesse sentido, diversas universidades brasileiras passaram a estruturar políticas públicas de inclusão digital, que vão além do fornecimento de acesso à internet e equipamentos. Laboratórios de informática, plataformas de ensino virtual adaptadas e programas de treinamento digital, surgem como estratégias para garantir que os estudantes em situação de vulnerabilidade social tenham oportunidades parecidas às de colegas com maior acesso tecnológico.

   Um estudo conduzido entre 2020 e 2022 por Adauton Ezequiel Müller, do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Gestão Educacional da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), revelou que iniciativas de inclusão digital não apenas melhoram o desempenho acadêmico dos estudantes, como também fortalecem o sentimento de pertencimento à universidade. Esse fator é considerado essencial para reduzir a evasão, especialmente entre alunos de baixa renda ou com acesso limitado a equipamentos e internet.

   Assim, a inclusão tecnológica é muito mais que uma simples questão operacional: ela atua no campo social e psicológico, promovendo pertencimento e engajamento. E é com base nesses resultados que universidades públicas brasileiras têm buscado criar condições estruturais para que estudantes em situação de vulnerabilidade acompanhem o ritmo acadêmico e se sintam integrados à vida universitária. Nesse cenário, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) implementou programas específicos de inclusão digital para apoiar a permanência estudantil:

  • Auxílio Inclusão-Digital: fornece notebooks e tablets aos alunos que não possuem equipamentos próprios, garantindo acesso a plataformas acadêmicas, aulas e atividades de pesquisa.

  • Apoio à contratação de serviços de internet: oferece subsídios para que estudantes possam ter conexão de qualidade em casa, essencial para participação em aulas online e realização de trabalhos acadêmicos.

  • Laboratórios de informática: mantêm computadores e softwares disponíveis para uso de todos os alunos, promovendo igualdade de acesso aos recursos digitais.

  • Mecanismos de acompanhamento: monitoram o impacto dessas iniciativas no desempenho e na permanência dos estudantes, permitindo ajustes e melhorias contínuas nos programas.

   Com essas ações, a UFU busca reduzir as barreiras impostas pela inclusão digital e promover um ambiente acadêmico mais inclusivo, aumentando as chances de seus alunos concluírem seus cursos com sucesso. Flávia Maria da Silva Santana, atual diretora da Diretoria de Inclusão, Promoção e Assistência Estudantil (DIRES), contou como o Programa Institucional de Inclusão Digital (PIID) da UFU surgiu. “O PIID surgiu na pandemia, quando a gente precisava oferecer esse suporte tecnológico, porque as atividades seriam todas remotas e nem todo mundo teria acesso em suas casas. A gente sabia que a UFU já tinha os laboratórios que oferecem esses equipamentos, mas na pandemia o uso não seria possível, então iniciamos esse projeto, que acabou virando um programa.” 

   Flávia também comentou o objetivo inicial almejado com o programa e sua importância para a manutenção dos alunos. “O objetivo principal dele foi atender a essa demanda na pandemia e foi o momento em que fizemos o maior número de liberações do auxílio. Naquele momento, o auxílio foi peça fundamental para conseguirmos garantir a permanência de boa parte dos estudantes em meio àquele cenário. Os pacotes de internet também vieram nessa perspectiva de atender essa demanda”. 

  Após a pandemia, a diretora comentou que, devido a uma disponibilização insuficiente de recursos, o PIID diminuiu a quantidade de distribuição do auxílio. “Passando a pandemia a gente manteve o Programa, mas em função de um volume de recurso insuficiente, nós precisamos, ao longo do tempo, ir redimensionando essa demanda. Então, de fato, o projeto foi diminuindo em relação àquela proporção gigantesca que tivemos na pandemia. As pessoas voltaram a ter acesso aos equipamentos que a UFU disponibiliza, aos laboratórios, o que tornou a demanda reduzida.”

   Segundo Flávia, a UFU, assim como outras universidades federais do país, vêm sofrendo muito no último ano devido ao corte orçamentário na educação, estabelecido pelo Governo Federal Brasileiro. “Esse ano foi muito atípico, no que diz respeito ao corte orçamentário na assistência estudantil. A gente vêm sofrendo a diminuição desse orçamento ano a ano desde 2015. Porém, nunca tínhamos vivido um corte em relação ao que estava no projeto da Lei Orçamentária quando ela foi aprovada. Normalmente o que estava no projeto sempre era executado. Este ano, quando aprovaram a LOA (Lei de Orçamento Anual), foi feito um corte na assistência estudantil. A gente vêm buscando ao longo do ano que o governo devolva esse recurso para a assistência.”

   O processo seletivo para a bolsa notebook na UFU é feito por meio de edital, onde o estudante precisa se inscrever no edital da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (PROAE) e participar do processo de análise socioeconômica feito pelas assistentes sociais da Divisão de Assistência e Orientação Social (DIASE). Para o estudante ser contemplado com esse tipo de auxílio ele precisa se enquadrar em alguns critérios socioeconômicos estipulados pela lei da Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES). Essa política prevê como critério a renda do estudante, que pode ser de até um salário mínimo per capita. Na metodologia de avaliação socioeconômica na UFU são considerados também outros fatores. É analisado, por exemplo, se o estudante cursou o ensino médio em uma escola pública ou privada, as condições de moradia do estudante em Uberlândia, o tipo de moradia de sua família e a quantidade de bens materiais, como móveis, dentro de sua residência, caso possua algum. 

   Flávia afirma que no edital do segundo semestre de 2024, haviam sido liberadas em torno de vinte vagas para notebook e vinte para tablet. Porém, no final do edital, a diretoria conseguiu fazer com que fossem incluídos mais equipamentos e subiu o número que girava em torno de vinte para quarenta vagas. Para o edital do primeiro semestre de 2025, a diretora reitera que não foi possível manter esse número para o auxílio de equipamentos, sendo mantido somente para o auxílio de internet fixa. 

  Dessa forma, as iniciativas de inclusão digital implementadas pela UFU e por outras universidades brasileiras representam não apenas uma resposta emergencial à pandemia, mas um caminho estruturante para a democratização do ensino superior. Ainda que limitadas pelos cortes orçamentários e pela alta demanda, essas políticas têm se mostrado fundamentais para garantir a permanência estudantil, reduzir desigualdades e fortalecer o sentimento de pertencimento universitário. O desafio agora está em manter e ampliar esses programas, transformando-os em políticas permanentes de Estado, capazes de assegurar que nenhum estudante seja excluído do espaço acadêmico por falta de acesso às tecnologias digitais.

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As vozes dos estudantes: um relato sobre a experiência de quem depende da inclusão digital​

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   Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um levantamento realizado em 2020 com mais de 23 mil estudantes de graduação identificou que 6% declararam ter acesso precário à internet. Já na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), uma pesquisa institucional apontou que 19% dos alunos não tinham condições de manter conexão de qualidade em casa para acompanhar atividades online. Esses números revelam que, mesmo dentro das universidades, milhares de jovens se encontram em situação de vulnerabilidade digital, o que torna a inclusão tecnológica um eixo essencial das políticas de permanência estudantil.

   Se os números revelam a escala da exclusão, os relatos individuais mostram o quanto a tecnologia pode transformar uma trajetória acadêmica. Estudantes que receberam os auxílios notebook/tablet ou internet relatam que o suporte foi fundamental não apenas para manter o vínculo acadêmico, mas também para fortalecer sua autoestima e pertencimento dentro da universidade. Em alguns casos, o equipamento se tornou a ponte entre o estudante e a possibilidade de seguir sonhando com o diploma. É o caso de Samantha Alves, estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Uberlândia, que descreve sua rotina antes do auxílio:

   “Eu fazia tudo pelo celular. Na época eu morava com outra menina que tinha um notebook e eu usava o dela quando precisava fazer alguma coisa". Antes de receber o auxílio, Samantha relata que a dependência de terceiros para acessar um computador era um obstáculo constante. Muitas vezes, ela precisava esperar que a colega terminasse de usar o notebook ou improvisar atividades pelo celular, o que atrasava os trabalhos e dificultava o acompanhamento das aulas online. Segundo ela, essa situação gerava ansiedade e sensação de estar sempre “um passo atrás” em relação aos colegas.

   Hoje, com o suporte recebido, a situação mudou: “Agora o acesso acaba sendo mais fácil para fazer os trabalhos e pesquisas. É bem mais fácil você fazer um trabalho pelo notebook do que pelo celular”. O auxílio também trouxe motivação e independência para os estudos: “Agora eu me sinto mais independente para fazer meus trabalhos, já que antes eu precisava do notebook da menina que morava comigo e muitas vezes ela estava usando e acabava que isso me prejudicava para fazer as atividades.”

  Além disso, Samantha percebe que ter acesso a um equipamento próprio impacta não só a rotina acadêmica, mas também sua confiança para participar de projetos extracurriculares e atividades em grupo. “Você passa a se sentir parte da universidade de verdade, porque não está mais limitado por algo que está fora do seu controle”, comentou a estudante.

   Além de Samantha, outros estudantes relatam como a inclusão digital transformou sua rotina acadêmica. José Lucas Matos, estudante de Jornalismo da UFU, descreve sua vida antes do auxílio como um verdadeiro desafio:

   “A palavra que define melhor era ‘terror’. Hoje eu não consigo lembrar de ter uma vida sem notebook. Já faz mais ou menos uns dois anos que eu tenho o notebook e, antes disso, se eu precisasse fazer um trabalho mais elaborado, como um slide no Canva ou mexer no Docs, eu tinha que ir até a sala de informática, perto do bloco de Ciências da Computação e TI.”

   Para José, a necessidade de se deslocar até os laboratórios impunha barreiras de tempo, planejamento e disponibilidade de equipamento, o que muitas vezes atrasava entregas e aumentava a pressão sobre ele. O auxílio, segundo ele, não só facilitou a execução das tarefas acadêmicas, mas também trouxe mais autonomia e confiança para explorar projetos que antes eram inacessíveis.

   Quando questionado sobre desistência, José revela resiliência: “Para entrar na UFU eu já estudava no celular, na pandemia, no cursinho. Eu já estava acostumado de certa maneira, então isso em momento algum passou pela minha cabeça. Mas hoje em dia, com o auxílio, meu desempenho é sem dúvidas bem melhor.”

 

Inclusão digital esbarra em obstáculos práticos​

   Embora o fornecimento de notebooks e auxílio internet seja essencial para a permanência estudantil, estudantes apontam que o processo para receber os benefícios ainda apresenta obstáculos.

   A estudante Samantha Alves aponta sobre os dilemas do programa: “Quando saiu o auxílio atual, eles cortaram o auxílio notebook. Não tem mais. Se eu não me engano, a gente recebe 1.500 para comprar o notebook e 700 para o tablet, o que eu particularmente considero pouco. É um valor que ajuda, mas se você está dando um valor para ajudar os estudantes, o ideal seria que eles não tivessem que tirar mais do bolso para completar o valor total.”

   Dessa forma, os desafios ainda são gritantes. A burocracia para obtenção dos auxílios, valores insuficientes e limitações na quantidade de equipamentos disponíveis evidenciam que, embora essenciais, os programas de inclusão digital ainda precisam ser aprimorados. Samantha comenta: “Talvez se diminuísse o tempo de todo esse processo para receber os auxílios, não só o de internet, mas também o de moradia e principalmente o RU. Esse processo demora bastante, e eles dão apenas um mês para comprar um notebook e apresentar todos os dados certos para a universidade. Caso não esteja correto, a gente tem que devolver o dinheiro inteiro.”

   Para José, o processo para receber o auxílio também apresentava dificuldades significativas. O discente explica: “O estudante precisa enviar todo seu histórico de renda e da sua família, todo processo burocrático relacionado a informações para a UFU saber em que estado você se encontra. Eu fiquei por volta de um ano sem notebook e era bem complicado.” José Lucas complementa que “O valor recebido não era 100%. Não sei se houve reajuste, mas na minha época era 1.500 reais. Com esse valor você não compra um notebook hoje, a não ser que seja usado ou muito antigo. Eu paguei no meu computador 2.800, então recebi 1.500 e precisei entrar com mais 1.300. Ou seja, o auxílio não contempla totalmente, mas dá uma ajuda muito boa.”

  José explica que a necessidade de se deslocar até os laboratórios, somada à burocracia e ao valor insuficiente do auxílio, impunha barreiras de tempo e planejamento, atrasando entregas e aumentando a pressão sobre ele. Ainda assim, o benefício trouxe autonomia e confiança para explorar projetos que antes eram inacessíveis.

   Diante desses entraves, fica evidente que a inclusão digital no ensino superior ainda está longe de ser plenamente garantida. Os programas existentes, embora fundamentais, funcionam como respostas emergenciais a um problema estrutural que exige soluções mais duradouras. Enquanto o acesso aos equipamentos continuar marcado por limitações práticas e desigualdades de uso, a promessa de democratização do ensino superior permanecerá incompleta. Superar esses obstáculos significa não apenas ampliar os auxílios, mas repensar a forma como a tecnologia é incorporada ao cotidiano universitário, de modo a transformá-la em uma ferramenta efetiva de permanência e não em mais um motivo para o abandono dos cursos.

 

Além do equipamento: exclusão digital como questão de habilidades​

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   A exclusão digital costuma ser associada apenas à falta de acesso a computadores e internet, mas, segundo a professora da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal de Uberlândia, Aléxia Pádua Franco, o problema vai além da dimensão material. Para ela, possuir um notebook ou um pacote de dados não garante, por si só, a plena inclusão. “Exclusão digital não significa só não ter o equipamento e não ter a internet, não é só isso”, explica. Mesmo estudantes que conseguem acesso a esses recursos ainda enfrentam dificuldades relacionadas à qualidade das ferramentas, à limitação do pacote de dados e, sobretudo, às competências necessárias para utilizar a tecnologia de maneira eficaz.

   Essas dificuldades se tornam ainda mais evidentes em cursos que exigem softwares pesados ou ferramentas específicas. A professora cita o caso dos alunos de engenharia, que precisam de programas robustos para o desenvolvimento de cálculos e projetos. “Até onde eu sei, o notebook que era fornecido para os estudantes não era o suficiente para baixar um programa. Então o aluno depende de vir para a universidade, usar os laboratórios que têm o programa”, afirma. Ou seja, mesmo contemplados por auxílios, muitos ainda precisam se deslocar até os espaços coletivos, o que limita sua autonomia.

   Mas o desafio não está restrito à infraestrutura. Aléxia Pádua chama atenção para um aspecto central: as habilidades informacionais. Segundo ela, muitos estudantes não sabem, por exemplo, realizar uma curadoria adequada das informações que encontram na internet. “Um aluno que saiba entrar num buscador, normalmente vai ser o Google, precisa entender que o que aparece primeiro não significa que é conteúdo de qualidade. Nos resultados da pesquisa existem publicidades, tem engajamento, não é necessariamente o que há de melhor em termos acadêmicos”. A falta dessa competência leva a uma vulnerabilidade acadêmica invisível, que impacta diretamente a aprendizagem.

   O mesmo se aplica ao uso de inteligências artificiais. A docente observa que cada vez mais estudantes recorrem a ferramentas como ChatGPT para pesquisas, mas sem compreender como funcionam os algoritmos que estruturam as respostas. “O aluno não considera os vieses algorítmicos dessa IA. Ele acredita fielmente no que ela entrega, como se ali estivesse todo o conhecimento acumulado pela humanidade”, alerta. Esse desconhecimento produz uma nova forma de exclusão digital, em que o estudante tem acesso à tecnologia, mas não à compreensão crítica de seu funcionamento.

   Nesse sentido, a exclusão digital deixa de ser apenas um problema de acesso físico e passa a ser também uma questão de formação cultural e informacional. Estudantes que não dominam habilidades de pesquisa, análise crítica e uso de softwares acadêmicos sofrem desvantagens que comprometem sua permanência na universidade. Como ressalta a professora, “não ter a bagagem de compreensão de como funciona a tecnologia digital dificulta que o aluno se aproprie de fato do conhecimento”.

 

Democratizar a tecnologia para democratizar o ensino​

   A evasão universitária, como mostrou o professor Leonardo Barbosa, não nasce de uma única causa, mas de camadas de fatores que se acumulam ao longo da trajetória acadêmica. A renda, o desempenho, as condições de trabalho e até situações de violência e assédio compõem esse mosaico de dificuldades. Nos últimos anos, a exclusão digital entrou nesse conjunto como um vetor decisivo, seja para estudantes que não têm equipamentos adequados, seja para aqueles que, mesmo com acesso, enfrentam barreiras linguísticas, culturais e de habilidades informacionais. Permanecer no ensino superior, portanto, depende cada vez mais de conseguir transpor também os muros invisíveis da tecnologia.

   As iniciativas de inclusão digital, como ressaltou a diretora da DIRES, cumprem papel central nesse esforço. O auxílio notebook/tablet, internet e os laboratórios digitais são ferramentas que garantem não apenas a participação em atividades acadêmicas, mas também o sentimento de pertencimento dos estudantes à universidade. No entanto, como lembram os relatos de alunos beneficiados, esses programas ainda esbarram em obstáculos práticos: equipamentos defasados, burocracia no acesso e a insuficiência diante da demanda crescente. A professora Alexia Pádua acrescenta outro alerta: “Não basta distribuir notebooks; é preciso oferecer também formação contínua, minicursos e metodologias de ensino que preparem os jovens para lidar criticamente com as tecnologias digitais”.

   Diante disso, a inclusão tecnológica deve ser compreendida como parte indissociável das políticas de permanência estudantil. No século XXI, democratizar o ensino superior significa também democratizar o acesso à tecnologia, não apenas em seu aspecto material, mas em sua dimensão cultural, informacional e política. Como sintetiza a professora: “Não adianta digitalizar se você não concede às pessoas acesso igualitário ao que é digital”. O futuro da universidade pública depende de enfrentar esse desafio: transformar a tecnologia de barreira em ponte, garantindo que cada estudante que entra pelas portas da instituição tenha condições reais de concluir sua formação e, assim, ampliar os horizontes de sua própria vida e do país.

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Como se inscrever no Auxílio Inclusão Digital da Universidade Federal de Uberlândia

   O Auxílio Inclusão Digital – Internet é voltado a estudantes regularmente matriculados em cursos presenciais de graduação ou pós-graduação da UFU, com renda familiar bruta mensal per capita de até um salário mínimo. Para concorrer, é preciso estar cursando a primeira graduação ou pós-graduação e comprovar que no endereço informado existe possibilidade de contratar pacote de internet fixa ou móvel.

   A inscrição deve ser feita pelo Portal de Serviços da Graduação (www.portal.prograd.ufu.br/servicos). O estudante deve acessar com matrícula e senha institucional, selecionar a opção “Ingresso nos auxílios” ou “Alteração/Inclusão de auxílios” e preencher o formulário. Entre os dados solicitados estão informações pessoais, composição do grupo familiar, além de conta corrente ativa em nome do próprio estudante. Após esse preenchimento, é indispensável validar o Termo de Compromisso no sistema.

   Depois da inscrição, a PROAE divulga uma lista preliminar de convocados para envio da documentação comprobatória em PDF (até 10MB). Entre os documentos exigidos estão:

  • Documentos pessoais: RG, CPF e comprovante de matrícula atualizado.

  • Grupo familiar: RG e CPF ou certidão de nascimento de todos os membros, além da declaração de composição familiar

  • Comprovação de renda: contracheques ou holerites dos últimos três meses, declaração de autônomo ou de ausência de renda, extratos bancários, carteira de trabalho, comprovantes de benefícios (INSS, programas sociais etc.).

  • Comprovante de residência: conta de água, luz, telefone ou outro documento oficial.

  • Dados bancários: comprovante ou print de conta corrente em nome do estudante.

  • Específicos para inclusão digital: declaração de possibilidade de acesso à internet no endereço informado e aceite do termo de compromisso.

   Se o aluno não tiver análise socioeconômica vigente (menos de dois anos), será necessário agendar uma entrevista social com o Serviço Social da UFU. O resultado final do processo é publicado no site da PROAE. Caso deferido, o auxílio de R$ 80,00 mensais é depositado na conta cadastrada entre os dias 20 e 25 de cada mês. Para pós-graduação, a duração máxima é de quatro meses, correspondendo a um semestre letivo.

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Entenda como acessar ao Portal de serviços da Graduação e encontrar o edital e formulários:

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Na UFU, programas de inclusão digital procuram evitar que a falta de tecnologia leve ao abandono dos cursos. (Foto: Mariana Rolim)

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Para muitos alunos, o auxílio digital é a diferença entre continuar os estudos ou abandonar o curso. (Foto: Gabriel Morais)

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Na UFU, políticas de permanência estudantil incluem ações de inclusão tecnológica, essenciais para combater a evasão. (Foto: Reprodução/Internet)

Reportagem produzida como exigência parcial para aprovação nas disciplinas Jornalismo Digital e Projeto Disciplinar em Comunicação III do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia.

Av. João Naves de Ávila, 2121 - Santa Mônica, Uberlândia - MG, 38408-100

Universidade Federal de Uberlândia

Participantes: Gabriel de Souza Morais, Eric Paschoalino Robert e Mariana Ribeiro Rolim

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Este site está vinculado às disciplinas de PIC III e Jornalismo Digital do curso de Jornalismo da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) © 2025

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